Régis Danese, o maior fenômeno musical evangélico do momento, repercute nas rádios seculares

regis_danese_smallO cantor e compositor mineiro Régis Danese conseguiu mais do que pede a Deus na letra de seu maior sucesso musical, Faz um milagre em mim. Desde que lançou seu último trabalho, o CD Compromisso, puxado pela canção cujo primeiro verso diz “Como Zaqueu, eu quero subir o mais alto que eu puder”, em outubro do ano passado, Danese está saboreando bem mais que quinze minutos de fama.

A música é um fenômeno, gruda na cabeça como chiclete e toca em todas as rádios evangélicas, seja qual for a igreja ou empresa que a controle – o que, por si só, já pode ser considerado um milagre, dada a acirrada concorrência, para dizer o mínimo, que caracteriza o setor. Faz um milagre em mim também é pedida pelos ouvintes de rádios seculares que tocam em geral funk e pagode, como a popular Nativa FM 96,5, uma das mais ouvidas do Rio de Janeiro.

“Nunca imaginei que uma canção cristã pudesse tocar numa rádio dessas, é difícil de acreditar”, diz Danese, ainda surpreso com o efeito do sucesso. Na Saara, região de comércio popular do centro do Rio, os alto-falantes dos boxes que vendem produtos evangélicos (originais ou não) despejam a canção nos ouvidos dos transeuntes o dia todo. Além de emissoras de rádio católicas, Faz um milagre em mim já foi executada até em centro espírita e em programas de TV como o do apresentador Raul Gil, da Rede Bandeirantes, e o TV Xuxa, da Globo. Tamanho sucesso – um milhão de cópias vendidas, segundo dados da gravadora Line Records – contrasta com a situação do cantor há alguns poucos meses. “Não digo que passei fome, mas para quem andava de carrão importado de repente não ter mais dinheiro para nada, com família para sustentar, é muito complicado. Mas, graças a Deus, isso mudou.”

Natural de Passos (MG), Danese iniciou sua carreira em 1989, integrando a dupla sertaneja Régis & Raí, com a qual lançou um LP pela extinta gravadora BMG Ariola. Mais tarde, em 1991, foi convidado pelo pagodeiro Alexandre Pires para participar do grupo Só Pra Contrariar. Durante cinco anos, suas composições fizeram sucesso, como Te amar sem medo, O samba não tem fronteiras e Amor verdadeiro. São dele também várias canções interpretadas por artistas como Daniel, Gian e Giovani, Cristyan e Ralph, Belo, Vavá, Elimar Santos e Alcione.

Porém, há quatro anos, Danese se converteu ao Evangelho por intermédio de um amigo, o também cantor Vandinho, que curiosamente era ministro de louvor de uma Igreja Quadrangular em Uberlândia (MG) e cantava no grupo de pagode: “Ele ficou durante anos no conjunto e sempre manteve uma postura diferente da nossa, mostrando seu caráter de homem de Deus. Certo dia, quando eu passava por um grave problema no meu casamento, ele me falou de Jesus. Recebi aquela palavra e acreditei”, lembra o compositor. A partir dali, Danese abandonou a carreira secular e passou a conviver com diversos problemas financeiros, até o milagre da multiplicação de CDs acontecer.

Consciente da realidade do mercado fonográfico brasileiro, ele não tem ilusões: “Não dá para viver com o dinheiro dos direitos autorais”, resigna-se. Danese hoje frequenta com a mulher Kelly e o filho Bruno a Assembléia de Deus de Uberlândia. Nesta entrevista a CRISTIANISMO HOJE, o artista fala sobre música evangélica, mercado gospel, direitos autorais e a sempre controversa questão da cobrança de cachês:

A quê você atribui o estrondoso sucesso de Faz um milagre em mim?

Na verdade, essa música não foi composta por mim. A letra é da minha mulher, Kelly, e do compositor Joselito, amigo nosso. Curiosamente, eu pretendia guardar Faz um milagre em mim para o próximo CD, mas várias pessoas que a ouviram antes de ser gravada me disseram para não esperar mais. Alguns desses irmãos profetizaram para mim, dizendo que a música iria abrir as portas do Brasil para o meu ministério. Eu sempre escuto essas pessoas, pois através delas Deus pode falar. E eu tenho um certo dom para reconhecer uma canção que promete. Eu sabia que essa música tinha algo que iria pegar. No início, achei que só estava tocando no eixo Rio-São Paulo, mas vejo que está por todo lado, graças a Deus. Tem uma letra muito forte, que fala com qualquer ser humano, seja crente ou não; o pessoal se identifica com o verso “mexe com minha estrutura”. Essa palavra é a que toca as pessoas, pois vai ao encontro do que há no coração de todo mundo. Todos temos essa necessidade de que Deus vá tão fundo em nossa vida que altere toda a nossa estrutura.

Como é o processo de criação de suas composições?

Como compositor, posso dizer que a fórmula é a inspiração natural. Você está andando no carro e sente uma inspiração; então, deve parar e escrever. Mas não dá para forçar a barra e tentar repetir fórmulas ou receitas – ainda mais com as coisas de Deus.

Antes de se converter, você compunha para vários artistas da música popular brasileira. Ainda recebe pelos direitos autorais?

Não. No Brasil, não é como nos Estados Unidos. Aqui, a música é descartável. E isso está ocorrendo com a música evangélica também. Virou um comércio. A música para de tocar, você para de receber. No caso de Roberto Carlos ou Chico Buarque, por exemplo, eles recebem muito dinheiro porque fizeram músicas que não são perecíveis. Mas as minhas composições naquela época, reconheço, eram sucessos de momento, para ganhar dinheiro. A partir do momento em que eu larguei a carreira secular, que era o meu ganha-pão, passei um tempo recebendo dinheiro de direitos autorais: de três em três meses, eu recebia uma grana. Só que depois fiquei sem dinheiro. Perdi quase tudo e quase passei necessidade. Mudei de um carrão importado para um carro velho, assim que entrei na igreja. Houve quem dissesse que eu deveria voltar ao ambiente mundano. Mas com essa música, tudo mudou. O Senhor tem me abençoado.

Você acha que o sucesso dessa canção pode aumentar a aceitação das músicas evangélicas no mercado secular?

Olha, por volta de 1991, quando eu comecei a cantar sertanejo com o Raí, nenhuma rádio tocava esse tipo de música. Depois, com o sucesso de algumas duplas, o sertanejo virou febre em todo o país. O mesmo aconteceu com outros ritmos que só tinham algum espaço em rádios segmentadas, como funk e pagode, mas que venceram o preconceito e se disseminaram. O sucesso de canções gospel como Faz um milagre em mim tende a abrir mercado para a música evangélica. Ela foi cantada até no programa do padre Marcelo Rossi, na Rede Globo, e tem sido chamada de hit gospel.

Como foi sua carreira evangélica até aqui?

Meu primeiro CD, O meu Deus é forte, ninguém queria pegar. Aí, eu fui indicado como revelação masculina e melhor CD independente num concurso nacional, e só então a Line Records começou a distribuí-lo. O segundo álbum já foi distribuído pela Line. Agora, o Compromisso já chegou à marca de 1 milhão de cópias vendidas.

Foi o suficiente para você se estabilizar financeiramente?

Tenho participação nas vendas e minha vida financeira mudou da água para o vinho. Volto a dizer que, quando abandonei a música secular, perdi tudo, menos a casa onde moro. Alguém já tinha me dito que Deus iria restaurar meu patrimônio, o que está acontecendo agora.

Como é sua relação profissional com o segmento evangélico? Você cobra cachê para se apresentar nas igrejas?

No início, quando me converti, eu não precisava, pois vim do mundão com o bolso cheio. Nem aceitava oferta para cantar em igreja. Mas o dinheiro acabou e vieram as dificuldades. Minha banda é formada por nove pessoas, incluindo eu e um auxiliar. Todos os músicos são do Rio de Janeiro e são todos evangélicos. Se sou convidado para ir a um evento com cobrança de entrada, estabeleço um cachê. Mas, quando vou às igrejas, é diferente. Quando elas têm condição de nos abençoar com uma boa oferta, a gente aceita. Mas, quando é uma igreja pequena e sem recursos, cantamos de graça mesmo. Às vezes, nem levo CDs.

Quando você canta em cultos, a igreja fica obrigada a comprar determinado número de CDs?

Não. Isso não ocorre.

Alguma igreja já lhe deu calote?

Infelizmente, há igrejas que fazem isso. Já houve casos de eu ter que tirar o dinheiro do bolso para voltar para casa. A igreja fez o convite, eu fui e depois não cumpriram o acordo. Hoje, tento evitar que um compromisso não seja cumprido por parte de quem me convida. Tenho pessoas que cuidam da agenda e outros que me ajudam na questão estrutural, tratando dos detalhes. Uma agência de viagens vende as passagens para a minha banda. Na hora que a pessoa fecha a minha participação em um evento, ela já compra com essa agência de viagem as passagens de ida e volta do grupo.

Muitos cantores evangélicos cobram cachê até para cantar em cultos, e não cobram pouco. O que acha disso?

Não fico à vontade para julgar isso. É o mesmo caso daqueles cantores que se convertem, cantam nas igrejas e depois voltam para o mercado secular. Como posso criticá-los, se minha conversão é fruto desse vai e vem?

via- Folha Gospel

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